25 de mar. de 2009



Eu tinha medo do escuro quando era pequena. Um dia o meu pai me mostrou o que tinha no escuro, e não era nada. Não era bem medo do escuro, mas do que tava no escuro. Ele me mostrou que não era nada, muitas vezes. Tudo bem, com ele junto eu até acreditava, mas bastava ele ir embora pro medo voltar multiplicado por vinte e três. Eu não tinha medo do amor quando era pequena. Queria encontrar um príncipe encantado, daqueles de viver feliz pra sempre. Queria que o pra sempre chegasse logo, só pra ser feliz. Daí eu virei gente grande. O medo do escuro passou em partes, ainda durmo com a televisão ligada. Mas não tenho mais medo do que tá no escuro, tenho medo é da minha mente, que é bem inventadeira. Daí eu virei gente grande. E me veio um medo do amor. É tudo muito lindo na teoria, mas na prática, na vida real, no dia-a-dia, na convivência, no encontro bate um medo. Medo de tudo, até de ser feliz. Porque ser feliz assusta bastante, ainda mais pra mim, que adoro reclamar. Ser feliz é o que todo mundo almeja, mas quando chega lá, a gente pensa ei, e agora? O que eu faço com isso? Então você começa um processo de sabotagem. Arruma uma coisinha aqui e ali pra puxar a corda do defeito e estragar tudo. Tenta procurar alguma sujeirinha que ficou pelo caminho, afinal, nem a melhor limpeza do mundo deixa tudo brilhando por mais de trinta e cinco minutos. Você tenta e tenta e tenta e é vencida por uma coisa mais forte. Porque quando a coisa é forte e quando o príncipe encantado é daqueles de viver feliz pra sempre, não tem jeito, é a sina: você vive feliz pra sempre. E dá uma trégua para o espírito sabotadeiro. Chega, você resolve se permitir, afinal, o pra sempre tá aí, o que custa ser feliz?
Quando eu dei aquele coração sabia que não ia me arrepender. O coração da Rosinha ficou muito tempo guardado, intacto, na mochilinha dela. Pensei em tirá-lo algumas vezes dali, por motivos óbvios. O problema é que os motivos mostraram, na prática, que não eram tão óbvios assim. E eu desisti. Mas aquele dia, quando a luz apagou, aquela noite, com algum atraso, naquele momento eu sabia que a minha vida, de alguma forma, ia mudar. E que eu não seria mais a mesma. E, ainda assim, seria ainda mais eu. Hoje eu tenho certeza que o coração foi tirado no momento certo. Entregue para a pessoa certa, coisa que até então eu não tinha lá tanta certeza se existia. "A pessoa certa, a pessoa certa", adoram falar isso. Hoje eu acredito. E concluo que o amor vale o preço que a gente paga, apesar de não ser um artigo encontrado em qualquer loja do ramo, seja ele qual for.

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