2 de mar. de 2010


Só pra você lembrar de mim...

Amiga : Esquecida eu sempre fui, não é de agora. , troco o nome das pessoas e o nome das coisas, lembra como você ria de mim? Ficou sendo o meu charme. Mas hoje me assusto. As palavras não me chegam. Em certos momentos estou com elas prontinhas na boca, mas desaparecem no instante em que vou falar. Somem sem dar-me a chance de um adeus. E, junto com elas, some todo o meu pensamento, toda a razão da conversa. Fico como uma pateta no meio do caminho, sem concluir o que havia iniciado. Disfarço, mas não gostaria de disfarçar, queria que todos prestassem bem atenção em como isso acontece e entendessem que não é de propósito que eu não completo minhas frases, não é de propósito que ando devagar, não é de propósito. Não estou querendo punir ninguém com a minha pouca saúde. Quando eu era bem criança (porque criança ainda sou) , brincava com minha irmã de esconder pequenas coisas em uma das mãos. Cruzava os dois braços atrás das costas e pedia para ela escolher: adivinha em que mão está a tampinha, adivinha em que mão está a moeda. Ela escolhia um dos braços, eu trocava o objeto de mão caso ela tivesse acertado e só então mostrava a minha palma aberta e vazia: ERROU!
Sinto como se Deus tivesse feito a mesma brincadeira comigo. Cruzou os seus dois braços por trás e pediu que eu escolhesse. Só que não havia tampinha, não havia moeda. A escolha que Ele me deu foi entre a morte e a vida. Melhor viver, evidente. Minha opção é por viver até quando der. Mas eu desejava um terceiro braço, uma alternativa menos incômoda: a saúde intacta. Sem nenhuma armadilha. Sem lapsos. Sem o afinamento da minha pele – estou ficando transparente! E com os joelhos fracos. Você não sabe a importância de um corrimão. Não faz idéia. A Bruna reclama das minhas roupas, me acusa de ter perdido a vaidade. ela é engraçada.  Não lembro se eu era tão apegada com minha mãe. Morreu antes de você, ao redor dos 50, e não me atrapalhou a vida, nem me afrontou, até onde recordo. Se bem que, depois que as mães se vão, como não absolvê-las? Minha irmã retruca, diz que eu era igualzinha, sem tirar nem pôr: impaciente ao falar no telefone e queixosa de suas manias, principalmente da sua avareza. Mas creio que fui atenciosa com ela, tratava-a com cuidado e calma, entendia suas limitações. Tenho quase certeza que sim. Você nunca ficou doente. Nunca mesmo, que eu me lembre. Eu também não (Quase mentira), os médicos me fazem agrados, pedem exames e depois de avaliarem o resultado me chamam de garota, fingem que sou imortal, mas tudo me dói, cada dia surge uma pontada em um lugar diferente do corpo, e estas são as que me inquietam, as dores móveis. As fixas, que latejam sempre no mesmo lugar, são como se fossem da família. Sentiria falta delas caso me deixassem. Me lembro do quanto vc queria que eu comesse. Que bom que você escapou. Nunca saberá como é duro despedir-se de si mesma todas as noites, antes de dormir, temendo falecer sozinha durante o sono. Mas não virei uma lutadora trágica, no fundo, sei que vou acordar amanhã, nem que seja para escrever longas cartas pra você, que me acompanha mais com sua ausência serena do que aqueles que me escutam mais ou menos, sempre de olho no relógio.
Até breve.

Conto os minutos para nosso reencontro.

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