14 de jan. de 2009

pulando o conto de férias.

Mesmo se estou feliz, alguém vem avisar que felicidade é um descontinho que a realidade dá por você ter se levantado novamente.Chorar melhora sempre, mas chorar também me deixa numa melancolia que atrai vários espíritos tristes, eu choro por tudo o que faz tanto sentido mas, se eu sentar pra explicar em detalhes, vou parecer louca e tô meio com preguiça de sempre parecer louca, prefiro fazer cara de obra de arte incompreendida. Antes no meu trabalho tinha uma menina que tinha a voz mole, doce, chata, caipira, velha. Cada vez que ela abria a boca eu sentia uma infelicidade tão grande que suspirava pesado e azedo, e olhava triste para a cadeira vazia na mesa do meu chefe: se eu tivesse coragem sentava lá e comunicava meu sumiço.Eu enchia minha gaveta de doces e a cada hora colocava um na boca, eu disparava pelo meu e-mail sessenta “oi, como é que vai?” e passava o dia catando conversas pelo mundo afora. Tudo para não soltar um berro ou socar alguém. Ontem eu estava numa festa e todo mundo ria, bebia e relembrava muitas coisas. Eu passei mais da metade da noite olhando fixamente para um saco de pão pullman e me perguntando o que ele fazia na fruteira se ele não era fruta. Atacou a síndrome do TOC fiquei pirada, e a confusão do mundo me incomoda tanto que eu queria passar meses arrumando a minha casa e fazendo listas de tudo o que precisa melhorar. De preferência, com luvas. Como sempre faço há anos, liguei para aquele velho amigo ( Leandro ) , já deixou de ser emocionante e virou meio automático, sabe? Ele estava na praia com a megera , pensei em fazer uma piada com “praia da Megera” mas fiquei em silêncio e ele disse “você nunca vai ser feliz enquanto der valor para coisas superficiais”. Odiei isso ¬¬' pensei no que ele quis dizer. Às vezes eu acho que alugar um apartamento cheio de pôsteres de cinema, almofadas coloridas e festinhas com amigos bacanas e música boa resolveria meu problema, me entupiria do meu mundo a ponto de eu parar de sentir tanta falta de mim. Às vezes eu acho que casar e me encher de família resolveria meu problema, talvez eu me vendo multiplicada resolveria meu medo de não existir. Às vezes eu só queria dançar uma daquelas músicas idiotas da Jovem Pan, numa balada cheia de idiotas e parar de odiar tanto todo mundo. Tem dias em que eu não sinto a menor vontade de beijar o Rodrigo, mas assim que ele vai embora, eu beijo o azulejo do chuveiro de tanta saudade que eu sinto dele. Tem dias em que eu não consigo levantar da cama porque nada parece mais perfeito do que me esconder do meu cérebro dentro dele mesmo, todos os dias eu deito na cama e penso que deveria fazer boxe para aliviar o coração.Eu perdi o deslumbramento com o amor, com o trabalho e com a beleza. Eu descobri que amor entedia, emprego não é diversão e belezas são relativas. O problema é que não soube substituir o meu deslumbre por acomodação, eu não sei me conformar com a chatice do mundo. Mas o que exatamente seria uma vida extraordinária? Nas poucas vezes em que senti algo realmente extraordinário, ou eu estava brincando de não ser eu, ou estava fazendo algo errado, ou estava vivendo algo que acabaria rápido e que jamais seria contaminado pelo tédio. Viver extraordinariamente é isso então? É estar fora da nossa própria vida? É viver pouco várias coisas? É viver muito poucas coisas? É ser um personagem de um roteiro que a gente muda toda hora? Na hora do almoço fui até o shopping e parei em frente a um pet shop. Vi o cachorro mais fofo do planeta e ele me olhou com a alma mais pura do mundo. Fiquei pelo menos uns cinco minutos ajoelhada olhando fixamente para ele e querendo muito que ele fosse para a casa comigo. Seria tão simples, a gente se apaixonou, a gente trocou olhares, a gente quis se conhecer melhor, a gente precisava um do mundo do outro.Mas eu não tenho espaço na minha casa, eu não tenho grana e eu não tenho tempo. Larguei o cãozinho bebê jogado no meio de um monte de jornal molhado e ele ficou me olhando como se eu fosse a primeira e única desilusão da sua vida curta. A lógica sempre ataca nossos instintos e transforma desejos em elaboradas impossibilidades. Queria apenas ir ser selvagem como diz aquele poema do Fernando Pessoa, ir ser selvagem apenas, acho que a angústia humana é o nosso lado animal reprimido. Eu sei, eu sei, o mundo tá cheio de gente alagada, sofrida e morrendo. Tá cheio de guerras, explosões, corrupções e doenças. E eu sou fútil com a minha tristeza sem desgraças. Mas não seria ainda mais fútil e desgraçado eu ser feliz nesse mundo? Sei lá, é só mais um post bobo, se a gente tivesse nascido em outro tempo, seria uma carta boba. O mundo vai se modernizando e a gente continua com essa angústia pré-histórica aqui no peito.

"porque o que quase foi não pode atrapalhar o que ainda pode ser. "

Boom, vou comentar sobre a virada do ano, e um pouco sobre a viagem nos próximos posts!

Nunca me conformei com o fim de nada. Por mais que eu sentisse que era a hora. Por mais que eu quisesse ou precisasse me livrar das coisas. O “acabou” sempre chega ou chegou como se eu jamais tivesse parado pra pensar nele. Cruel, terrível e doloroso além de mim. O último dia em qualquer coisa que tenha durado tempo suficiente pra me fazer dormir sorrindo com o dia seguinte. Um emprego, um curso, uma casa, uma viagem especial, um relacionamento. O ultimo dia do ano. Sempre tristes, sempre cheios de momentos em que eu preciso me isolar e ficar de um quase desespero catatônico. Uma vontade de sair correndo sem me mexer. Um pavor calmo e, pra quem nada entende de espasmos assustados, até sorridente. Um mal estar em velar a vida que acabou pra poder continuar. Uma mistura caótica de enterro com nascimento, tipo se apaixonar. Uma coisa horrorosa me assusta e eu quero algo que não é nem a minha mãe e nem a minha cama e nem a minha casa. Ainda existe ir embora. Mas da onde? Eu sempre querendo ir embora. Mas pra onde? Quero um colo e um quente e um ombro que nunca conheci. Não é de homem, de amor, de força. O que é isso? Um enjoado que não faz passar mal. Um frio que não precisa de agasalho. Uma necessidade absurda de ir para um lugar que eu nem imagino qual seja. Uma saudade de vida inteira como se eu já tivesse vivido. Sentei sozinha onde a vista era mais bonita. Apertei meu celular. Pra quem eu queria ligar? Quem? Ninguém. Não era saudade de gente essa coisa. Não era coisa que passa de ouvir voz ou desejo ou coisas bonitas. É saudade da família, do cara, do gato? Não, eu sou assim. Escuto os outros e enquanto isso acontecer, não vai passar. Preciso me escutar. Mas não tenho nada pra me dizer. Só esse vão dos pensamentos. Só esse intervalo de motivos. Só a soneca merecida do carrasco que mora no centro da minha cabeça. Só o momento alienado das listas. Esse bueiro vazio embaixo da vida. Essa falha da linha embaixo do que se tem a dizer. Esse nada que caio, de vez em quando, e que também não tem nada pra me dizer a não ser que o mistério também faz parte. Assim que eu me sentir mais leve, simplesmente saio dele, sem nada concluir. Não dá pra forçar, levar um choque de voltar pra superfície. Só o que existe é enfrentar esse algo que jamais soa como algo a ser enfrentado, já que não é nada. A virada do ano. Estamos todos morrendo! Quero correr pela praia. E gritar. Fodeu galeraaaaaa! Estamos todos morrendo! Acabou. Ta acabando. Vai acabar. E isso é...putz, e isso é tão lindo que eu queria poder, agora, amar demais tudo e todos. Amar daquele jeito perfeito que dura um segundo e não quer nada em troca. Mas não faço nada disso, apenas rebolo, como se eu fosse mais uma ovelha do rebanho feliz, ao som do Asa de águia. E é como se o diabo me filmasse para eu saber, pra sempre, o quanto me traio pra jamais sucumbir a minha estranheza. O quanto deixo de assustar os outros com a minha maluquice e me assusto com a maluquice dos outros em mim. Rebolo pra dar de presente ao mundo minha presença, ainda que nem eu possa senti-la nessas horas. Acabou. O ano virou. Daqui a pouco, todos estarão tão bêbados que eu poderei ser estranha ou infeliz ou bizarra ou nula como bem entender. Talvez ir dormir, por exemplo.E poderei me libertar dessa obrigação pavorosa de estar feliz e simpática e emanando coisas boas. A ditadura da felicidade. Ano Novo é que nem o Rio de Janeiro. O Hugo Chávez da alegria. Eu quando fico estranha, quando tenho o “troço” que me dá, a última coisa que quero é um abraço. Agora imagina ficar estranha todo ano novo, a data dos abraços. Socorro. Agora é a minha vez. Enquanto todos acabam de comemorar o final do ano, começo a comemorar o final da comemoração de final de ano. Ufa! Acabou! Acabou o Natal e o ano novo! Ufa! Agora que não precisa ser feliz, posso ser feliz em paz. Agora que não precisa ter energia, esbanjo minha falta de limite. Quero correr pela praia. Estamos todos vivos. Galeraaaaaa estamos vivooooos! Ufa! Acabou! Acabooooou! É isso. Não sei ser feliz com os finais que chegam. Mas sempre dou um jeito de me divertir quando sou eu que, apesar de tudo, chego até o fim.

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